sábado, 11 de julho de 2009

ROXO BERINGELA

Sem dúvida, um dos grandes diferenciais da minha Brasilia e alvo dos mais exacerbados comentários é sua indefectível cor ROXA. Ok, eu pertenço a uma minoria, bem minoria mesmo, subclasse relegada às margens da sociedade que, entre as várias cores presentes neste universo de meu Deus, dá preferência simplesmente à roxa... E isto, muito antes do nosso querido ex-presidente Collor surgir com a "pérola" do "aquilo roxo". Minha mãe já havia detectado esta minha predileção por roxo e suas variantes lilás e violeta quando eu era ainda criança, principalmente quando saíamos para comprar roupas.
Até entendo que esta cor esteja na rabeira da lista das mais lembradas e amadas: é uma cor que, em seus tons mais escuros, remete a eventos fúnebres e de prostração; nas matizes mais claras, é associada à opção homossexual... Sem ignorar ou atacar estas opiniões, eu vejo de um modo completamente diferente: cor elegante, o roxo me passa noção de requinte e classe. É sóbria, mas ao mesmo tempo chama a atenção (se é que isto é possível). E, convenhamos, é uma ótima escolha para quem quer fugir do lugar-comum: a frase "minha cor preferida é roxo" causa espanto e curiosidade em qualquer situação. Quem sabe a nova camisa roxa do Corinthians não popularize a minha preferência e a eleve ao mesmo status do azul ou vermelho?
Hoje o roxo faz parte da minha vida naturalmente: a minha camisa "de sorte", aquela que uso em eventos especiais (como entrevistas de seleção, por exemplo) é roxa. Roxa de botões roxos!... A minha equipe de kart no AMR (http://formula-amr-2009.blogspot.com/) é roxa e, pelo menos até aqui, líder em 2009. Minha família aceita bem a minha preferência e meus amigos associam-na diretamente com a minha pessoa. E voce há de concordar que não poderia ser de outro modo: meu carro tinha que ser roxo!
Respeito quem gosta, quem acha bonito, mas o bege original da minha Brasilia era um tanto comum e sem graça. Quantas Brasilias, Fuscas, Kombis e Variants beges voce já viu rodando por aí? Natural que eu promovesse uma mudança, assim como natural foi a escolha da cor. Para facilitar o trabalho, ideal que a tinta já fosse usada em algum outro modelo: é muito mais simples pedir pela cor "tal" do carro "tal". Encontrei alguns modelos da Ford (Ka, Ranger, Escort "sapão") em um tom de roxo bonito, mas o que me encantou mesmo foi o "beringela" do Corsinha da primeira "fornada", presente também nos seus derivados Sedan, Pick-Up e Wagon.
E para ficar claro que é roxo mesmo (e não azul escuro, como alguns lanterneiros insistem em mencionar), seu nome nos catálogos é "Roxo Rossette". Esta pintura chegou a ser parte de uma reportagem do Motor Extra (Jornal Extra - RJ), com direito a foto e tudo, entre aquelas que transformam um carro em invendável, mencionando também o verde limão e o amarelo metálico do lançamento do Palio...
Que a cor mais associada à Brasa continue sendo o amarelo (salve Mamonas Assassinas!). Que as caras de surpresa e estranhamento continuem se proliferando quando falo dela (e se desfazendo quando a mostro pessoalmente). Brasilia com 4 portas e roxa só tem uma: a minha! E tenho dito!

sábado, 4 de julho de 2009

A BARATA "IMPORTADA"

Muitas histórias curiosas envolvem a trajetória desta Brasilia 4 portas. Este foi um dos motivos para que eu resolvesse montar este blog e confidenciar estas passagens inusitadas. Com certeza uma das mais diferentes, para não dizer quase bizarra, foi quando resolvi trocar os "vidros" da Brasilia.
Como já dito anteriormente, comprei o carro com o vidro do motorista e o quebra-vento do carona feitos de acrílico. Não sei exatamente o que houve, se foi acidente, furto ou uma besteira qualquer. Também admito que não procurei saber: às vezes é melhor deixar o passado onde ele está. Muito provavelmente o dono, na época, não encontrou os vidros para repor e adotou o acrílico como solução. Inteligente, se não acontecesse uma coisa: com o tempo, o acrílico vai fosqueando, trincando e arranhando, chegando a um ponto que não se enxerga nada através dele. O meu caso não era tão crítico, mas chamava a atenção negativamente.
Em busca dos vidros perdidos, rodei quase todas as vidraçarias de Campinas e encontrei até uma especializada em carros antigos. E mesmo nesta, nem sombra do que eu procurava. Aprendi algumas coisas, como o fato dos vidros, apesar de aparentemente retos, serem ligeiramente curvados, o que me impedia de mandar fabricá-los sem que isto custasse o valor do carro todo. Outra descoberta interessante: o poder da internet! Aliás, como voce vai perceber acompanhando a história deste possante cor de beringela, se não fosse a internet provavelmente a idéia de reformar este carro não sairia do papel.
Na internet encontrei o anúncio de um catarinense que estava desmontando uma Brasilia 4 portas e vendendo as peças. Foi um dos meus primeiros contatos com compra eletrônica, e tudo transcorreu conforme combinado. Por 90 reais (um preço que até hoje considero baixo) recebi em meu apartamento uma caixa com os vidros envoltos em bastante jornal.
Na época, o apartamento que eu alugava (um quarto-e-sala) estava passando por uma pequena reforma de renovação do sinteco (piso) do quarto. Assim sendo, eu estava dormindo em um colchão no chão da sala, por conta do cheiro forte. Peguei a caixa quando cheguei em casa à noite, após o trabalho. Abri sobre a pequena e única mesa que havia lá, conferi o material (se havia o logotipo Volkswagen, se estava sem arranhões, se o quebra-vento possuía trinco, etc.), deixei os vidros sobre a mesa, e a caixa mais "trocentas" folhas de jornal soltas no chão.
Durante a madrugada, a surpresa. Eu dormia um sono ainda não tão pesado e acabei despertando com um barulhinho, semelhante ao de uma brisa passando sobre folhas secas. Era um ruído que se repetia em intervalos curtos. Intrigado, resolvi levantar e acender as luzes. Localizei o sonzinho sob um monte de jornais e, quando puxei as folhas, uma BARATA, daquelas estilo "halterofilista" mesmo, "bem nutrida". Ou seja, eu havia literalmente "importado" uma barata diretamente de Florianópolis...
O mais ridículo de toda esta história é que eu levei MEIA HORA para matar a bendita em um cômodo que, se tiver 12 metros quadrados (3 x 4 metros), é muito... Um verdadeiro baile! Os vidros foram instalados com todo o cuidado dias depois, sem grandes dificuldades e fazem parte da Brasa até hoje. Já a barata com porte de Schwarzenegger e ginga de Garrincha, agora faz parte é da história.

terça-feira, 16 de junho de 2009

ELVIS NÃO MORREU

Realizado o sonho de adquirir o carro que você tanto procura, duas coisas normalmente acontecem: a avaliação do que você comprou e os planos para transformar seu novo carro num “superbólido”, nesta ordem.
Depois de realizado o depósito, a Brasília e seus documentos me foram entregues na Bosch, no horário do expediente. Como eu não tinha vaga na empresa, ela teria que ficar na rua mesmo. E na primeira mexida, tudo bem com o motor, que pegou logo nas primeiras tentativas (o tio da ex-proprietária era mecânico). Senti que a direção era um tanto dura, mas joguei a culpa nos pneus, mais largos do que os originais. Estacionei o carro e, na hora de fechá-lo... A porta do passageiro só trancava por dentro: na chave, nem em sonho. Notei também que o quebra-vento deste lado tinha uma “cara” estranha, meio fosco: era de acrílico, assim como o vidro do motorista, o que só detectei no final de tudo. Voltei para o trabalho com a cabeça do lado de fora da empresa.
Terminado o dia (era uma sexta-feira) parti para a aventura de levar a Brasa para casa. Como era verão, o dia não escureceu tão cedo, o que me ajudou a ficar mais tranqüilo quando notei que “minha nova filha” pensava 56 vezes antes de decidir parar, mesmo com o pé cravado no freio... A direção continuava dura, até quando em movimento, e suspensão e quebra-molas (em Campinas há vários, além de valetas também) não chegavam em um acordo: era só na base da pancada. Estacionei em casa completamente molhado de suor.
No dia seguinte, sabadão de sol, fui olhar com mais carinho para a dita cuja, dar uma lavada... Descobri que minhas caixas de ar, a esta altura, só tinham mesmo ar. A espuma dos bancos estava boa, mas a forração, nem tanto. Duas rodas bem enferrujadas e duas lâminas de pára-choque também. E nada de polainas. O painel de instrumentos (o chamado “moderno”) estava solto, pois o local de fixação dos dois parafusos estava quebrado. E o retrovisor do lado do motorista simplesmente se recusava a ficar na posição: adorava admirar o asfalto.
Tomei logo a decisão de resolver os problemas, principalmente os de segurança. Ou seja, o trajeto foi Bosch, casa, casa, oficina. Levei meu carro na Sena Auto Center, onde costuma deixar o Santana com o mecânico Elvis. Pois é, Elvis não morreu: Elvis está vivo e trabalha na Sena Auto Center. Contei tudo que havia encontrado e mais um pouco. No dia seguinte, quando voltei para pegar o orçamento, notei a alegria da proprietária Maria de Lourdes (a "Malu") em me atender. E logo entendi o porquê.
Entre os problemas, dois amortecedores e uma barra estabilizadora quebrada, um freio traseiro inoperante, discos e pastilhas gastos na frente, escapamento furado, as molas já eram, duas rodas também e, o mais importante: uma caixa de direção com a carcaça rachada. Pois é, meu caro, comprando a Brasa e levando para o Elvis, salvei cinco vidas: a minha e a dos quatro caras que andavam nela...
Mais de mil reais se foram (aproveitei e troquei o escape por um de Puma, com aquele ronco incrível), mas pelo menos estava seguro para andar. E foi aí que discordei dos meus colegas de Bosch, que disseram que eu fui o único cara de Campinas que havia comprado um carro somente com o 13º. salário... Eu não havia comprado um carro: eu havia comprado uma deliciosa dor-de-cabeça...

sábado, 13 de junho de 2009

FINALMENTE!

Eu acredito no poder da mente. Apesar de nunca ter usado isto de modo premeditado, metódico, como indicam alguns livros (como “O Segredo” e “A Lei da Atração”), eu acredito sim. E acho que encontrar a minha Brasília 4 portas foi fruto deste poder. Vamos ver se você concorda comigo.
Depois de dois encontros com este raro modelo de Brasa (um deles muito frustrante), qualquer um daria a questão como encerrada e me mandaria procurar outra coisa para fazer. Mas eu queria muito aquilo. Acho que a proximidade na tentativa com Sr. Armando fez com que a vontade aumentasse ainda mais. E aí você começa a pensar em tudo que se pode fazer, todas as possibilidades.
Era dezembro de 2003. Eu comprava jornais toda semana, ligava para os que anunciavam Brasilias e obtinha sempre a mesma resposta: “não, a minha tem duas portas”. Comércio de veículos pela internet ainda era muito insipiente, e não restavam alternativas. Até que um colega de trabalho me indicou uma rua, próxima ao supermercado Extra, onde as lojas vendiam carros com mais idade, fora do fenômeno “semi-novos”...
E lá fui eu, pós-expediente, correr as 12 lojas da bendita rua (havia deixado o Santana no estacionamento do Extra) em busca de um milagre. Claro que não me espantei com o resultado: metade dos vendedores não tinha este modelo, a outra metade nunca tinha sequer ouvido falar em Brasília 4 portas. Sem surpresas, pelo menos até a volta...
Retornando ao estacionamento, lembrei que precisava comprar um desodorante (juro, simples assim). Quando estava entrando no supermercado, encontrei com um colega de Bosch que aguardava numa fila com seu filho para entrar em um brinquedo tipo pula-pula. Detalhe: não era comum este tipo de brinquedo no Extra: tratava-se de um evento especial. E começamos a conversar.
Falávamos justamente da minha "epopéia" em busca da Brasília quando, no final do estacionamento, avistei uma bege e (melhor ainda) vi dois brilhos na lateral. Pensei: caramba, as maçanetas! Interrompi o papo, corri até lá e... era ela: uma Brasília 4 portas! Quase não acreditei! Dei uma olhada rápida, e o carro me pareceu bom. Corri para o outro lado do estacionamento e trouxe o Santana para perto dela. Isto era por volta das 18 hs.
Resolvi “bater plantão” até a chegada do dono. Dei mais uma analisada e, apesar de algumas coisas para fazer, me pareceu um carro interessante. Ainda conversei com mais um cara que passava e me viu “urubuservando” a Brasa. 18:30, 19:00, 19:30 hs, e nada! E o tempo fechando! Nuvens e mais nuvens! Minha preocupação não era a chuva em si, mas a possibilidade do dono entrar no carro e sair correndo sem nem olhar para trás. Ficava pensando em como seria seu dono e o que diria para ele. De repente, um outro senhor, quem sabe...
Foi quando se aboletaram em torno da Brasília quatro rapazes. “Boa tarde! Quem é o dono da Brasília?” – perguntei. O motorista disse que era ele. “Quer vender?” (assim mesmo, na “cara-dura”!). Foi quando ele informou que, na verdade o carro era da irmã dele, mas que acreditava que ela queria vender. Trocamos telefones e, para encurtar a história, uma semana depois eu era proprietário de uma Brasília bege 4 portas 78 à gasolina, com dupla carburação, pelo valor de dois mil reais. Obviamente me senti realizado! E sem saber quanta história ainda estava por vir...

sábado, 25 de abril de 2009

A SEGUNDA DE TRÊS

Se eu tenho uma qualidade na vida, esta certamente é não desistir dos sonhos tão facilmente. Eventualmente eles tomam outra forma, moldam-se de acordo com a situação vigente, enfim (parafraseando Lavoisier), nos meus sonhos "nada se perde, tudo se transforma". E no sonho de ter uma Brasília 4 portas, tive que desistir da primeira, já que, além do carro, encontrei um camarada tão aficcionado e fechado no seu propósito quanto eu. Não tinha dinheiro para uma proposta irrecusável, nem outros meios de convencê-lo. Por outro lado, mesmo sendo visivelmente difícil, eu ainda acreditava na possibilidade de achar outra Brasilia de raras 4 portas. Saí à procura nos jornais da região, conversei com os conhecidos e, por que não dizer, com os desconhecidos também.
Certo dia, a bateria de meu Santana resolveu "dar por encerradas suas atividades" e eu tive que apelar para um taxi para chegar ao trabalho. Taxistas normalmente são bons de papo e muitas vezes o assunto preferido é seu instrumento de trabalho, ou seja, carros. Papo vai, papo vem, contei as dificuldades que estava enfrentando para encontrar a "agulha no palheiro" e citei o fato de que, antigamente, não era difícil encontrar uma Brasilia desta rodando como taxi no Rio de Janeiro. Foi aí que o taxista teve uma "luz"...
Um senhor, proprietário de uma frota de 6 a 7 taxis para aluguel, teria tido em suas mãos uma Brasilia 4 portas que utilizou na "praça" e que, segundo constava, estaria guardada, sem utilidade em sua garagem. Este senhor (um português de nome Armando) já estava com idade avançada, bastante dinheiro no bolso e - imaginava o taxista - com uma boa conversa e alguma grana, ele fatalmente toparia em fazer negócio comigo. E mais: ele morava em uma casa localizada a meras três quadras da Bosch. Nem preciso mencionar a mudança de rota rumo à casa do nobre lusitano, preciso?...
Casa mostrada, endereço anotado, trabalhei aquela manhã com a cabeça ligada nas possibilidades. No final da minha hora do almoço, deu uma "fugida" e fui bater na porta do Sr. Antonio. Na "cara dura" mesmo, me apresentei ao senhor de 70 e poucos anos e contei um resumo da conversa com seu colega taxista. Ele se mostrou solícito e me abriu sua casa, mesmo levemente desconfiado do estranho aqui. Me levou até a garagem e levantou uma capa onde, no meio da poeira, podia-se ver de fato uma Brasilia Amarelo Java de 4 portas, ano 80.
Admito que não consegui ver muitos detalhes, mas me pareceu um carro íntegro. Admito também que, na hora de fazer a proposta, mandei mal (mas mal mesmo). Na minha cabeça engenheirística, subtraí dos dois mil reais que estava disposto a gastar, o valor dos 4 pneus novos e da bateria que teria que adquirir para colocar a brasa para andar. E (sabe-se lá como) este cálculo absurdamente deu 850 reias. E foi isto que ofereci ao velho português. Foi triste notar a mudança de humor e como o tempo dele para mim rapidamente "se encurtou". Com repetidas frases "vou pensar", ele me levou até a porta e mal se despediu.
Uma semana depois voltei atrás de uma resposta e, sem sequer abrir a porta e sem dar explicações (se é que precisava), através da janelinha de visita ele disse não estar mais interessado na venda. Voltei umas duas ou três vezes depois que vi o tamanho da bobagem que havia feito, mas em todas elas quem me atendeu foi sua enfermeira dizendo que ele estava acamado. Perdi algumas noites de sono e mentalmente me dei algumas "chibatadas" pela oportunidade desperdiçada.
Posteriormente fiquei sabendo que, de fato, ele havia ficado doente naquele período e viria a falecer, deixando a Brasilia para o inventário da família. E eu voltei a estaca zero, sem pista de outra 4 portas, mas, como disse no começo, sem nunca desistir do sonho.
56 abraços!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

PORQUE UMA BRASILIA 4 PORTAS?

Acredito que o passo primordial para se tornar um antigomobilista é escolher que marca, modelo, época ou tema vai nortear a sua coleção. E o leque de opções é grande: veículos do pós-guerra, décadas de 50 e 60, americanos ou europeus, veículos do começo do século passado, "muscle cars" da década de 70, "minis" (Isetta, Fiat Topolino, Mini Morris, etc.), caminhões antigos, picapes... Apontar uma escolha neste universo extenso muitas vezes não é tarefa fácil. E não é raro uma experiência do passado se transformar em paixão: o carro da minha infância, o primeiro que dirigi, aquele que o vizinho tinha e não vendia de jeito nenhum, e por aí vai.
Comigo a coisa aconteceu de modo mais racional, sem deixar de ser quase por acaso. Todos os dias eu percorria um mesmo caminho para chegar ao trabalho. E no meu trajeto matinal vinha pensando que carro seria o escolhido para começar a "brincadeira". Queria que fosse algum de mecânica descomplicada, sem dificuldade de se encontrar peças e que não apresentasse muitos defeitos. Afinal, era o começo e este deveria ter uma certa facilidade, para "pegar o jeito da coisa". Qualquer um com um mínimo de conhecimento sobre carros nas nossas terras tupiniquins apontaria tranquilamente a mesma família: Volkswagens de motorização "a ar" (Fusca, Kombi, Variant, Karmann-Ghia e seus derivados). Como dizia meu pai, acham-se peças de Fusca até no botequim da esquina... Para ficar perfeito, só se fosse relativamente confortável e levemente raro. Afinal, uma raridade é o que todo colecionador quer.
Por acaso, neste mesmo trajeto para o trabalho havia uma auto-elétrica. E um belo dia surgiu um carro "diferente" por lá. Comecei a notar que este "diferente" passou a ser "permanente" na frente da oficina. E todo dia nós nos encontrávamos. O "diferente" era uma Brasília 4 portas, cor branco gelo, já equipada com as rodas do modelo conhecido como "tijolinho". Realmente a coincidência me chamou atenção. Afinal, era um carro de mecânica simples, com os atributos que estava buscando: confortável como um Fusca jamais poderia ser (espaço + 4 portas = conforto), fácil de achar peças e um pouco raro, visto que poucas foram produzidas, sendo a maioria exportada ou vendidas a taxistas.
Estava decidido: seria uma VW Brasilia 4 portas! Não demorou para eu conhecer o dono daquela Brasilia branca e descobrir se ele (se não me engano, seu nome era Miguel) estaria disposto a vendê-la. Acabei descobrindo que ele havia acabado de comprar aquela, depois de uma certa "caçada" nas cidades vizinhas de Campinas. Acabamos trocando algumas informações sobre aquele modelo, sobre sua reforma e o estilo das linhas (para nós, muito mais equilibradas que a Brasilia de 2 portas). Ficou a promessa, por este meu mais novo amigo, de um contato, caso uma outra 4 portas fosse encontrada por ele, o que de fato acabou não acontecendo.
Admito que saí meio desolado daquele encontro... Afinal, se já era difícil encontrar uma Brasilia de 4 portas em Campinas, que dirá outra? Mal sabia eu que logo toparia não com uma, mas com outras DUAS destas. Mas isto é história para um outro (próximo) post...
56 abraços!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

CAMPINAS E O ANTIGOMOBILISMO

Com certeza um dos passos mais importantes da minha vida foi a mudança para Campinas. Na época, eu trabalhava em um micro-escritório-apartamento-bagunçado em Botafogo, cujo dono-chefe fazia serviços de análise de tensões em tubulações para a Petrobras. O assunto era chato, muito chato mesmo, mas mais ainda era meu chefe, sem sombra de dúvidas o pior que tive até hoje... Sem futuro ou prazer, somente a grana razoável que entrava era o que me mantinha lá. Mesmo assim, buscava outros desafios e mandava meu currículo para algumas empresas, principalmente no ramo automobilístico e de auto-peças, meu foco e minha paixão. Foi quando surgiu um processo de seleção para a Bosch, em Campinas. Passei pelas várias etapas e acabei contratado em 2002, para a fábrica de Freios.
Com quase 26 anos, já era hora mesmo de sair debaixo da saia da mamãe... E foram dois anos e meio muito bons, de novas experiências e muito aprendizado. Uma real mudança de vida. Campinas é uma boa cidade, com boa infraestrutura e sem a bagunça (leia-se sujeira, falta de educação e violência) do Rio de Janeiro. E, para minha sorte, também é uma cidade de tradição maior quando o assunto é automóvel antigo. Os constantes encontros de antigomobilistas no Shopping Galeria, que acontecem até hoje, não me deixam mentir.
Ganhando bem, morando sozinho, buscando novos rumos e com esta aura antigomobilista campineira, foi de certo modo natural que eu decidisse por começar a minha própria coleção de antigos. Afinal de contas, não é somente a beleza destes carros que me chama a atenção. O empenho de seus proprietários em manter as condições originais, os detalhes minuciosos, os cuidados especiais, realmente me toma de grande admiração. Gosto de pessoas que lutam com real afinco por um objetivo.
E mais um ponto importante veio ao meu encontro: a possibilidade de personalização. Não ser apenas mais um na multidão (ou, neste caso, no trânsito). Original ou modificado, um veículo antigo tem sempre a cara do seu dono e o diferencia de tudo que normalmente encontramos por aí. Não há quem não note e não abra um sorriso ao ver um "antiguinho" passeando na rua. Gosto dos novos carros, da velocidade, da tecnologia que eles carregam, mas é fato que a mesmice comercial tomou conta do mercado através dos modelos atuais. É até bem fácil confundir um Fiesta com um Corsa ou Celta, mas até uma criança sabe quando na sua frente está um Fusquinha.
E foi a partir daí que comecei a crescer no tema, a buscar informações, a assinar minhas Classic Show, Fusca & Cia., Antigos de Garagem, etc. Descobri que até entre os colecionadores existem diferentes perfis, décadas e modelos preferidos, clubes de todas as marcas, encontros, venda de peças e até competições. E que a possibilidade de escolha é quase infinita. E conforme você vai conhecendo, mais vai se encantando e querendo fazer parte deste "desfile sobre rodas". Como dizem os apaixonados, vai circulando ferrugem nas veias...
No próximo post, como entrei na prática para o rol dos proprietários de veículos antigos.
56 abraços!

domingo, 5 de abril de 2009

A PRIMEIRA BRASILIA

Minha mãe costuma utilizar provérbios e ditos populares para várias situações. Alguns bem conhecidos ("o que não tem remédio, remediado está" ou "filho de peixe, peixinho é"), outros nem tanto ("as águas calmas são as mais profundas"). No caso da minha primeira experiência como motorista, coube bem o famoso "casa de ferreiro, espeto de pau".
Apesar da grande maioria das minhas atividades automobilísticas terem acontecido através das mãos e das ações de meu pai, e ele ser, de fato, um supercompetente motorista executivo, não foi ele quem primeiro me colocou no banco do motorista e disse "engata a primeira e vamos embora"... Talvez (ou melhor, certamente) pelo fato do carro da família ser também aquele que trazia o sustento, não havia margem para se correr riscos. A expressão "garantir a disponibilidade", que tanto uso hoje tratando de máquinas para produção, entrou muito antes na minha vida. Foram necessários mais de 800 km de distância e a iniciativa de um tio para que eu desse minhas primeiras voltas no volante de verdade (e não apenas para lavar o carro...).
Meu tio Marco sempre foi um tio próximo e querido dos sobrinhos cariocas. Talvez pela jovialidade, talvez pelo bom humor, sempre tínhamos agradáveis momentos juntos em nossas viagens à Curitiba. E coube a ele me dar a oportunidade de dar umas voltinhas pelo quarteirão.
Colombo, cidade satélite de Curitiba, na época praticamente só tinha ruas de terra batida e bastante tranquilidade. Meu tio me pegou de surpresa com o convite. Eu, com 17 anos e já apaixonado por carros, obviamente esperava com ansiedade por um dia como este, e topei a aventura na hora. Ao entrarmos no carro, ele me perguntou se eu sabia como fazer um carro funcionar (na teoria, eu sabia tudo, né?), me deu algumas dicas e soltou uma frase que ficou gravada na memória: "pé esquerdo só serve para duas coisas nesta vida: chutar bola e pisar na embreagem". Com isto, estava quase assegurado que os pés não ficariam se embaralhando perigosamente nos pedais, e que tudo correria bem.
Ok, a primeira vez é sempre meio complicada para tudo. Perguntei a meu tio se ele sentia o motor do carro tremer. Ele respondeu que sim. "Pois é, tio, neste caso, não é o motor: sou EU que estou tremendo"... Claro que deixei o carro morrer algumas vezes, "colei" a cara de meu tio no vidro duas ou três, suava cachoeiras de tão nervoso, mas no final foi gostoso. O volante era esportivo (um Panther, da época, se bem lembro) e os engates do câmbio aconteciam quase naturalmente. O torque em baixas rotações tornava a aventura mais interessante ainda. Houve ainda uma segunda "sessão" onde minha mãe e mais uma turminha foram no banco de trás, acompanhando. Não vi se alguém estava cravando as unhas de medo no assento traseiro, mas quando acabou, todos disseram que foi tudo bem.
Por fim, o detalhe mais interessante de toda esta história, e que você já deve estar imaginando: este carro do meu tio, de fato, era uma BRASILIA!... De um tom de vermelho quase vinho, era bonita como acho toda Brasília bonita, ainda mais naquele dia ensolarado. Mas, engraçado, passados mais de 15 anos, ainda lembro da sensação, da tocada, da precisão dos comandos e até mesmo da consistência do volante!
Tempos depois soube que aquela Brasília teve um fim não muito feliz, por conta de um incêndio e uma confusão com mecânicos. Ainda guardo uma foto deste "piloto" ocupando seu "cockpit" no "possante". Mas nem precisaria: toda vez que toco neste assunto, um filme na minha cabeça me faz estar lá, com todos os detalhes, como se estivesse tudo apenas começando...
56 abraços!

sábado, 28 de março de 2009

TUDO COMEÇOU ASSIM

Quem me conhece sabe bem a paixão que tenho por automóveis (definitivamente, a melhor criação humana). Desde criança eu sabia os nomes e fabricantes de todos os carros que trafegavam por nossas ruas, acompanhava os novos modelos, e até criava os meus próprios à base de muito papel e lápis. Algumas destas "criações" da minha "fábrica virtual" ainda guardo com muito cuidado e carinho.
Meu pai tinha no automóvel um instrumento de trabalho. Guia de turismo e motorista executivo, transportou alguns dos mais importantes presidentes de multinacionais, cantores, artistas da dança e do teatro, e outros de igual notoriedade. Não por acaso, ele tratava com muito esmero o "ganha-pão" da família. Ele e seu fiel pequeno escudeiro... Lavávamos, políamos, consertávamos e incrementávamos os carros que acompanhariam meu pai em dias e noites de trabalho suado e muitas vezes bem arriscado para trazer o sustento da casa.
Por suas mãos passaram vários, muitos carros mesmo. De sua propriedade, foram mais de 30, desde o primeiro Ford Prefect até a saudosa Variant 1976 que ajudei a encontrar e comprar. Não foram poucos Landaus, Galaxies, Opalas, Versailles e Santanas, todos ícones de luxo e sofisticação, cada um no seu tempo.

Muitos foram os Fusquinhas também (meus pais se conheceram quando ele viajava com um vermelhinho). Até uma Kombi, uma Caravan SS e um raro Voyage 4 portas preto (segundo ele, o que mais lhe deu retorno no trabalho) fizeram parte da família e dos meus sonhos de menino.
O primeiro carro que "movimentei" sem estar "empurrando" foi um Santana 85 azul, o primeiro (e, com certeza, mais desejado) Santana que ele comprou. Nossa, como eu suava!!! Calor? Não, era nervosismo mesmo! Manobrar aquele carrão pela apertada garagem do nosso prédio era um desafio! E pensar que meu pai saía dela, de marcha-à-ré, subindo e descendo duas ladeiras, com dois dedos de cada lado, manobrando um... Landau!


Realmente o véio era fera!... E acho que ficou claro que, "sem querer querendo", acabei criando esta paixão toda por carros. O primeiro contato com carros foi através dele; a assinatura da minha revista Quatro Rodas ele bancava; ele me acompanhou no meu primeiro Salão do Automóvel (em 1990); meu primeiro carro (um Voyage 85 cinza) e também o segundo (Santana 90 branco) foi ele quem deu. Até à minha primeira corrida de kart quem levou foi ele! As histórias, os ensinamentos, as lições, quase tudo que me relacionava com carro vinha dele. Quase tudo...
No próximo post, porque foi "quase" tudo e onde a Brasília entra nesta história...
56 abraços!