Se eu tenho uma qualidade na vida, esta certamente é não desistir dos sonhos tão facilmente. Eventualmente eles tomam outra forma, moldam-se de acordo com a situação vigente, enfim (parafraseando Lavoisier), nos meus sonhos "nada se perde, tudo se transforma". E no sonho de ter uma Brasília 4 portas, tive que desistir da primeira, já que, além do carro, encontrei um camarada tão aficcionado e fechado no seu propósito quanto eu. Não tinha dinheiro para uma proposta irrecusável, nem outros meios de convencê-lo. Por outro lado, mesmo sendo visivelmente difícil, eu ainda acreditava na possibilidade de achar outra Brasilia de raras 4 portas. Saí à procura nos jornais da região, conversei com os conhecidos e, por que não dizer, com os desconhecidos também.
Certo dia, a bateria de meu Santana resolveu "dar por encerradas suas atividades" e eu tive que apelar para um taxi para chegar ao trabalho. Taxistas normalmente são bons de papo e muitas vezes o assunto preferido é seu instrumento de trabalho, ou seja, carros. Papo vai, papo vem, contei as dificuldades que estava enfrentando para encontrar a "agulha no palheiro" e citei o fato de que, antigamente, não era difícil encontrar uma Brasilia desta rodando como taxi no Rio de Janeiro. Foi aí que o taxista teve uma "luz"...
Um senhor, proprietário de uma frota de 6 a 7 taxis para aluguel, teria tido em suas mãos uma Brasilia 4 portas que utilizou na "praça" e que, segundo constava, estaria guardada, sem utilidade em sua garagem. Este senhor (um português de nome Armando) já estava com idade avançada, bastante dinheiro no bolso e - imaginava o taxista - com uma boa conversa e alguma grana, ele fatalmente toparia em fazer negócio comigo. E mais: ele morava em uma casa localizada a meras três quadras da Bosch. Nem preciso mencionar a mudança de rota rumo à casa do nobre lusitano, preciso?...
Casa mostrada, endereço anotado, trabalhei aquela manhã com a cabeça ligada nas possibilidades. No final da minha hora do almoço, deu uma "fugida" e fui bater na porta do Sr. Antonio. Na "cara dura" mesmo, me apresentei ao senhor de 70 e poucos anos e contei um resumo da conversa com seu colega taxista. Ele se mostrou solícito e me abriu sua casa, mesmo levemente desconfiado do estranho aqui. Me levou até a garagem e levantou uma capa onde, no meio da poeira, podia-se ver de fato uma Brasilia Amarelo Java de 4 portas, ano 80.
Admito que não consegui ver muitos detalhes, mas me pareceu um carro íntegro. Admito também que, na hora de fazer a proposta, mandei mal (mas mal mesmo). Na minha cabeça engenheirística, subtraí dos dois mil reais que estava disposto a gastar, o valor dos 4 pneus novos e da bateria que teria que adquirir para colocar a brasa para andar. E (sabe-se lá como) este cálculo absurdamente deu 850 reias. E foi isto que ofereci ao velho português. Foi triste notar a mudança de humor e como o tempo dele para mim rapidamente "se encurtou". Com repetidas frases "vou pensar", ele me levou até a porta e mal se despediu.
Uma semana depois voltei atrás de uma resposta e, sem sequer abrir a porta e sem dar explicações (se é que precisava), através da janelinha de visita ele disse não estar mais interessado na venda. Voltei umas duas ou três vezes depois que vi o tamanho da bobagem que havia feito, mas em todas elas quem me atendeu foi sua enfermeira dizendo que ele estava acamado. Perdi algumas noites de sono e mentalmente me dei algumas "chibatadas" pela oportunidade desperdiçada.
Posteriormente fiquei sabendo que, de fato, ele havia ficado doente naquele período e viria a falecer, deixando a Brasilia para o inventário da família. E eu voltei a estaca zero, sem pista de outra 4 portas, mas, como disse no começo, sem nunca desistir do sonho.
56 abraços!
Ganhando bem, morando sozinho, buscando novos rumos e com esta aura antigomobilista campineira, foi de certo modo natural que eu decidisse por começar a minha própria coleção de antigos. Afinal de contas, não é somente a beleza destes carros que me chama a atenção. O empenho de seus proprietários em manter as condições originais, os detalhes minuciosos, os cuidados especiais, realmente me toma de grande admiração. Gosto de pessoas que lutam com real afinco por um objetivo. 